
Fotografia de Georgiardis
O pardal entrou, curioso, pela varanda adentro. A Rita e o Horácio foram a correr quando pressentiram o visitante. De repente, ouve-se um grito de guerra, um ruído de salto sobre as plantas, e o pardal está na boca do Horácio, enquanto a Rita tenta conseguir uma parte do espólio.
Saio do computador, corro, falo para o Horácio, seguro-o e consigo retirar o espantado pardal. Poiso os óculos na mesa mais próxima, abro a mão com cuidado, e verifico que o pardal está inteiro e com o ar de quem aprendeu a lição.
Vou à janela e liberto o pássaro, que hesita em levantar voo. Entretanto, os quatro gatos juntaram-se a farejar a presa perdida. O Horácio, sempre tão calmo, está tenso e concentrado. Pego-lhe e deixo-o olhar pelas janelas: olha com aplicação, com todos os músculos preparados para agarrar o próximo pardal. Mia e perscruta os céus como um artilheiro em pleno bombardeamento. Quando o poiso no chão, percorre mais uma vez o trilho de cheiros do pardal. Desde então -e já lá vão umas horas- o Horácio manteve-se alerta, circulando com um ar marcial. Há pouco sentou-se ao pé de mim, mas continua alerta, com as orelhas de um rosado intenso colorindo a sua brancura perfeita.
Tem sete anos, e só hoje provou o sabor da presa, o sucesso do predador.
Hoje tornou-se um grande caçador diante de Deus, de acordo com os antiquíssimos termos bíblicos. Pode algum de nós imaginar o que isso representa para um gato?



