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domingo, janeiro 6

A Questão da Liberdade


"Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas sinceramente não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições. Não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação. No seu ideal de vida, todos seriam submetidos ao Regime Disciplinar da Função Pública, revisto e reforçado pelo seu Governo. O PM José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra a autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas.
Temos de reconhecer: tão inquietante quanto esta tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder é a falta de reacção dos cidadãos. A passividade de tanta gente. Será anestesia? Resignação? Acordo? Só se for medo..."
António Barreto, em Retrato da Semana, Público de 6 de Janeiro de 2008

quarta-feira, dezembro 19

Adios, incandescente!


Com vista a reduzir os custos da iluminação, a tradicional lâmpada eléctrica incandescente vai ser eliminada do mercado australiano a partir de 2010 e do americano a partir de 2012. O objectivo é a utilização generalizada das lâmpadas de baixo consumo, como as fluorescentes em caixa ou em forma bolbosa, que não desperdiçam sob forma de calor a maior parte da electricidade consumida.
Devo dizer que utilizo lâmpadas de baixo consumo desde que apareceram, e maioria delas durou mais de dez anos - o que permitiu recuperar largamente o investimento feito. Esperemos que os preços baixem à medida que as vendas aumentam!
Pelo que sei, se todos nós optássemos por usar este tipo de lâmpadas, o volume de importações de energia eléctrica baixaria drasticamente no nosso país.
As razões para não se investir numa campanha SÉRIA que mostre aos portugueses as vantagens de tal opção, é algo que nem vou equacionar!

domingo, dezembro 2

As Duas Vizinhas


A vizinha do terceiro andar só morava naquele prédio há dois anos, quando deu conta de que a vizinha do primeiro andar tinha sido operada ao cancro da mama.
Ficou a pensar na vida difícil daquela mulher, seca e um pouco rude, que governava o condomínio quando ela ali chegara, e que a cumprimentava sempre com um pouco mais de amabilidade do que as outras representantes da terceira idade que viviam no prédio.
Lembrou-se que tinha a seu cargo um filho adulto que rompera o casamento uma semana antes da cerimónia, uma sogra surda e um marido que lhe falava sempre num tom áspero, audível para quem passava na escada.
Viu-a de regresso, com o cabelo reduzido a um buço triste, as faces encovadas e ainda mais escuras, a subir e descer a escada com compras, a levar à escola a neta que almoçava em casa dela, mal podendo respirar, mas sempre com a mesma coragem. Usava o cabelito ralo sem o esconder debaixo de nenhum lenço, parava em todos os degraus para respirar, e mal consentia ao marido que faltasse ao trabalho para a levar aos tratamentos.
Um dia, entrou na florista, aconselhou-se com a senhora e escolheu um grande ramo de rosas amarelas - já que o amarelo é a cor da saúde. Quem lhe abriu a porta no primeiro andar foi mesmo a dona da casa: entregou-lhe as rosas amarelas e disse algumas palavras sentidas e amáveis sobre melhoras rápidas. A senhora mostrou-se pouco receptiva e mesmo ligeiramente agastada. A outra saiu dali num passo pesado e triste, sentindo confusamente que tinha feito algo errado.

A vizinha do primeiro andar passou a cumprimentá-la de forma seca e quase agressiva.

Amor Fraternal


O Aniceto e o Joaquim são irmãos.
Lutaram ombro a ombro durante uma vida inteira - por uma vida mais desafogada, primeiro, e depois para gozarem de alguma prosperidade, já com uma fábrica de razoáveis dimensões como património. Um dia, o Aniceto adoeceu gravemente. Diagnóstico: problema incurável de rins.
O Joaquim deu o seu rim para salvar a vida do irmão.
O Aniceto recuperou, o rim do Joaquim assentou-lhe que nem uma luva, e regressou à Fábrica onde ambos tinham labutado durante tantos anos lado a lado.
O seu primeiro acto, ao regressar, foi mandar embora o Joaquim.

Para mim, o que se passa é que o ego Aniceto é demasiado pequenino para tamanha dívida.
Há carradas de ANICETOS por aí à solta!...

segunda-feira, novembro 26

Posto à consideração dos leitores....


"Vivemos sobre um despotismo 'iluminado' que não aceita a irregularidade, a dissidência, o direito de cada um à sua própria vida e ao uso irrestrito da sua própria cabeça."
25-11-2007
Alguém sabe quem disse isto, ainda ontem?...
Alguém quer alegar algo a favor ou contra?...

segunda-feira, novembro 12

O Comilão




Depois de um criterioso processo de recrutamento com entrevistas, testes e dinâmicas de grupo, uma grande empresa contratou um grupo de canibais para fazerem parte de sua equipa.

- Agora vocês fazem parte de uma grande equipe - disse o Director de
RH, durante a cerimónia de boas vindas. Vão disfrutar de todos
os benefícios da empresa. Por exemplo, quando quiserem comer alguma coisa, é só irem ao bar da empresa. Só peço que não comam os outros empregados, por favor! - acrescentou com um sorriso de grande cumplicidade

Quatro semanas mais tarde, o chefe foi ter com eles:
- Vocês estão trabalhar a sério e eu estou satisfeito. Mas a mulher que serve os cafés desapareceu. Algum de vocês sabe o que pode ter acontecido?
Todos os canibais negaram com a cabeça.

Depois do chefe se ir embora, o líder canibal pergunta:
- Quem foi o idiota que comeu a mulher que servia o café?
Um deles, timidamente, ergue a mão. O líder responde:
- És mesmo uma besta! Nós estamos aqui, com esta tremenda oportunidade nas mãos!
Nestas quatro semanas já comemos 3 directores, 2 superintendentes, 5 assessores, 2 coordenadores, uns 3 gerentes e ainda a mulher do Director, sem ninguém perceber nada. E ainda podíamos continuar por uns tempos!
Mas não... tinhas de estragar tudo e comer uma pessoa que faz mesmo falta! Agora vamos ter que desistir! E tudo porque tu és um grande parvalhão!

Com um obrigada à Marina!

quinta-feira, novembro 8

Século XIX ou século XXI?


RUY BARBOSA
Senador brasileiro até 1892, falecido em 1923.

SINTO VERGONHA DE MIM

Sinto vergonha de mim
por ter sido educador de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o "eu" feliz a qualquer custo,
buscando a tal "felicidade"
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos "floreios" para justificar
actos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre "contestar",
voltar atrás
e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer...

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço

quinta-feira, agosto 30

Silêncios


Há silêncios cintilantes, que estendem véus de prata e magenta por cima da nudez das coisas.
Há silêncios nocturnos e lunares, que sussurram forças antigas por dentro de nós.
Há silêncios pesados e tumulares, que abatem a mais luminosa das primaveras em cinza escassa.
Há silêncios que são silêncios, e nada mais.
m.s.

Contribuo com esta citação retirada das minhas fontes para uma questão levantada no directriz

domingo, agosto 12

Mênajátruá


Com um profunda agradecimento à Bell por esta incursão no Portugal prufundu, signifique isso o que significar...

sexta-feira, agosto 10

B.A.D.


Recomenda-se tomar conhecimento desta petição da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD), que envolve questões muito importantes relacionadas com o acesso aos livros e à sua leitura em Bibliotecas Públicas.
AQUI

quinta-feira, agosto 9

Telemarketing ou não...


Recomendo vivamente este post do Argos-zoom. O Pedro tem mau feitio, toda a gente sabe, mas é bom nestas análises!...

AQUI

Post Scriptum: se não digo que ele tem mau feitio, ele não me deixa citá-lo... Alega que tem uma reputação a defender!

quarta-feira, julho 25

Le Petit Prince


Quando eu era adolescente, este livro foi-me posto nas mãos como algo de muito recomendável. Nunca ouvi ninguém dizer que não gostava desta obra.

Mas a mim este livro deixa-me um profundo mal-estar, embora o ache, assim à vol d'oiseau, muito bonito, tanto no texto como nas ilustrações. Gosto da escrita de Antoine de Saint Exupéry, dentro da qual destaco Vol de Nuit.
Então, que há de errado com o Princepezinho? Releio-o de vez em quando, na tentativa de desvendar o mistério, e continuo a não saber o porquê desse mal-estar que persiste. Contudo, há um pressentir de que, na realidade, não fala do amor, nem do lado mágico da sedução, nem da saudade, nem da rosa, nem da raposa. Talvez não passe de uma bonita cortina de fumo perfumado, com a qual se escusou de olhar o espelho. O mesmo é dizer, se escusou de olhar o Outro.

Também não gosto de psicanalistas, mas deixo aqui a indicação de um livro curioso, eventualmente útil:
O Essencial é Invisível - uma leitura psicanalítica de O Princepezinho. Autor: Eugen Drewermann. A edição que conheço é do Círculo de Leitores.

quarta-feira, julho 18

O Último dos Românticos?


Ela atravessava a passagem aérea, entregue aos seus pensamentos um pouco inóspitos, metade da cara tapada pelas abas do chapéu, e dele só viu as bainhas das calças de ganga e os ténis, quando cruzaram a meio da ponte. Mas as palavras atingiram-na claramente: "Ah, que jeitosa!... Uma boneca assim é que eu queria para mim!"

Tinha sido educada na firme convicção de que mulher séria não tem ouvidos. Mas ele há coisas com as quais uma senhora não pode pactuar. Por isso, empertigou-se um pouco e disse clara e severamente, sem virar a cabeça: "Tenha juízo, homem! Vá mas é comprar uns óculos!" E continuou o seu caminho, sem mudar de ritmo e sem ouvir qualquer resposta.

Desceu a longa escada, muito séria. Quando chegou cá abaixo, parou de repente, esboçou um sorriso, e depois deu uma gargalhada saborosa.

quarta-feira, julho 4

O Cargo Revela o Homem?


Cada vez mais, é minha convicção profunda que a natureza humana é a mesma, no essencial, desde a noite dos tempos. Uma das coisas que não mudou é o gosto pelo poder. E o poder corrompe. É preciso um espírito verdadeiramente livre para suportar a embriaguês, as lisonjas e as pressões inerentes ao poder. A simples perspectiva de obter poder corrói as pessoas. Nem que seja um pequeno poder, como o de fazer sofrer aqueles que dependem de nós ou aqueles que amamos.

A maioria de nós troca muita coisa por essa euforia de manipular e controlar. Alguns, mais perigosos, trocam as causas e os princípios por essa efémera experiência. Porque ela é sempre efémera, mesmo quando dura trinta anos ou o resto da vida.
Com lápide ou sem ela, o fim chega sempre a tempo de acabar com os poderes.

Não acho a nossa época pior do que as outras: entendo que, sendo esta a que conheço em primeira mão, é por isso mais fácil apontar-lhe os erros ou ressentir-me com as suas injustiças e incoerências.

Posto isto, é evidente que a traição anda no ar, que as grandes causas são trocadas por coisas que valem tanto como um hamburger rançoso ou uma capa nas revistas socialite. É evidente que o Paraíso está muito longe. É evidente que a sede de poder é o principal motor de muitos. Os projectos de poder pessoal ultrapassam tudo, matam tudo, escarnecem de tudo, envenenam tudo. E cobrem-se de véus de fantasia que fariam empalidecer o mais fantásticos dos ficcionistas.

Com isso, provam apenas a sua escravidão interior. A sua mesquinha condição de seres dependentes de teias de aranha para se sentirem vivos. Como tal, são sub-humanos, porque não reconhecem o Bem com motor da sua vida. O cargo revela as pessoas, sem dúvida. O modo como exercemos o poder diz tudo sobre nós enquanto seres humanos.

O pior é que a sua falta de liberdade condiciona a dos outros. A sua falta de grandeza amesquinha os outros. A sua pequenez amputa os outros.

E, no fim, morrerão como todos nós, mas terão uma lápide a condizer, grande e vistosa, para esconder a podridão que alastra sob a terra. Felizmente para eles, essa lápide não fará a avaliação do modo como exerceram o poder.

sábado, junho 23

Século XXI


As duas mulheres de cabelo banco e costas um pouco curvadas entraram juntas. Uma demorou-se a comprar o bilhete, enquanto a outra avançou pelo corredor.
Uma mulher jovem e bonita, com um vestido curto muito in, levantou-se e cedeu o lugar à primeira amiga, do outro lado do corredor.
Em seguida, o homem também jovem e bem parecido que ocupava o lugar à frente do meu, cedeu o lugar à segunda amiga de cabelos brancos, que agradeceu e comentou com um sorriso: "Se toda a gente fosse assim boa, o mundo seria melhor!".

Duas paragens à frente, o homem e a mulher saíram, tal como muitos outros passageiros, e a Primeira Amiga pôde sentar-se no lugar à frente do meu. Comentário da Segunda Amiga: "Estás a ver? Deu-me o lugar! É boa pessoa! E ainda há quem fale dos pretos! Estás a ver?! Há muito branco que não dá o lugar à gente! Lá por ser preto, não deixa de ser boa pessoa! Já viste isto? O rapazinho preto é mesmo boa pessoa!" - e continuou a falar com a Primeira Amiga, mas deixei de perceber o que ela dizia, porque passou a falar em tom de segredo.