domingo, dezembro 2

As Duas Vizinhas


A vizinha do terceiro andar só morava naquele prédio há dois anos, quando deu conta de que a vizinha do primeiro andar tinha sido operada ao cancro da mama.
Ficou a pensar na vida difícil daquela mulher, seca e um pouco rude, que governava o condomínio quando ela ali chegara, e que a cumprimentava sempre com um pouco mais de amabilidade do que as outras representantes da terceira idade que viviam no prédio.
Lembrou-se que tinha a seu cargo um filho adulto que rompera o casamento uma semana antes da cerimónia, uma sogra surda e um marido que lhe falava sempre num tom áspero, audível para quem passava na escada.
Viu-a de regresso, com o cabelo reduzido a um buço triste, as faces encovadas e ainda mais escuras, a subir e descer a escada com compras, a levar à escola a neta que almoçava em casa dela, mal podendo respirar, mas sempre com a mesma coragem. Usava o cabelito ralo sem o esconder debaixo de nenhum lenço, parava em todos os degraus para respirar, e mal consentia ao marido que faltasse ao trabalho para a levar aos tratamentos.
Um dia, entrou na florista, aconselhou-se com a senhora e escolheu um grande ramo de rosas amarelas - já que o amarelo é a cor da saúde. Quem lhe abriu a porta no primeiro andar foi mesmo a dona da casa: entregou-lhe as rosas amarelas e disse algumas palavras sentidas e amáveis sobre melhoras rápidas. A senhora mostrou-se pouco receptiva e mesmo ligeiramente agastada. A outra saiu dali num passo pesado e triste, sentindo confusamente que tinha feito algo errado.

A vizinha do primeiro andar passou a cumprimentá-la de forma seca e quase agressiva.

4 comentários:

Anónimo disse...

Mas afinal qual era o problema das rosas? =S
A senhora até foi simpática...

Alda Serras disse...

A vizinha do primeiro não gostou da diferenciação de que foi alvo. Claramente, ela tinha a sua maneira de lidar com a doença e isso incluia o continuar normal da rotina. Ora, a oferta inesperada, apesar de simpática, das rosas amarelas veio-lhe recordar o que queria esquecer, o que se esforçava por camuflar na normalidade dos dias.

Eurydice disse...

Raiz, talvez a Bell tenha deixado uma boa pista para a coisa...

O que prova que as boas intenções não chegam, por um lado, e por outro que o ser humano tem uma infinita capacidade de variar as suas respostas aos problemas - o que deixa o determinismo psicológico e moral de rastos!... :)

Anónimo disse...

Já percebi :)
Não tinha pensado por esse lado...
Realmente tem razão.